A MADM conversou com a equipe por trás de uma festas queridinhas do público emo carioca
Criada em 2015, a E Eu Que Era Emo começou com intuito de resgatar a nostalgia e vontade de escutar bandas que já não estavam mais em alta, e ficaram apenas na memória daqueles que viveram a adolescência na primeira década dos anos 2000, marcada pelo auge da cultura emo. A primeira festa aconteceu em um pequeno espacinho no Rio de Janeiro, e logo de cara evidenciou a demanda por eventos do tipo, ficando tão cheia que deixou muita gente de fora.
O início já anunciava aquilo que seriam os próximos anos. A festa foi ganhando corpo, e aquilo que antes acontecia em casas pequenas, foi tomando uma proporção enorme. Cada vez mais, as pessoas passaram a frequentar o evento, seja para reviver um pouco do passado através da música, ou para conhecer bandas novas e fazer amizades. Mais que uma festa, a E Eu Que Era Emo passou a ser um espaço de convívio coletivo.
Atualmente, o evento é uma das maiores festas do Rio de Janeiro, com edições que acontecem também em Belo Horizonte e São Paulo. A festa reúne diferentes DJ’s, e fomenta o cenário de festas alternativas representando um lugar onde a diversidade encontra seu espaço, e a conexão acontece através da música. Para aqueles que acompanham a cena alternativa carioca, o evento já se tornou um ponto de encontro clássico.
Com diferentes temáticas, desde “festa do pijama” até “noite de gala” e edições de Halloween, a produção do evento é feita de uma equipe jovem e atenta em uma curadoria atual, acompanhando as tendências para misturar as novas bandas do rock, metal e emocore com as antigas que nunca vão sair de moda. A MADM conversou com Iggor e Julia da E Eu Que Era Emo, e falamos sobre a história da festa, curiosidades de bastidores e projetos futuros. Leia abaixo:
MADM: Antes de tudo, obrigada pelo tempo de vocês e pelo espaço para essa conversa. Para a gente é muito importante trocar ideia com todo mundo que faz parte da cadeia produtiva dos eventos — produtores, DJs, técnicos, todo mundo que faz o rolê acontecer.
Queria começar do começo: como surgiu a Eu Que Era Emo? Em que ano foi isso e como foram as primeiras festas?
EEQE – Iggor: Pra falar da Eu Que Era Emo eu preciso falar um pouco da minha carreira antes. Eu comecei produzindo eventos gratuitos no início da minha trajetória como DJ, lá na Bambina. Eram festas mais voltadas pro rock, pra galera da cena alternativa. A ideia sempre foi fazer um rolê pra nossa própria turma. Eu já tive banda, sempre fui muito apaixonado por música, então queria criar um espaço pra galera que curtia esse tipo de som.
Num dia, conversando com uns amigos sobre emo, uma amiga contou uma história. Ela estava no carro com o pai e o irmão falando que tinha sido punk, e o pai dela respondeu: “Nossa, Thais, lembra quando você era emo?”. E na hora a galera falou assim: “E eu que era emo?”. Na hora eu olhei pra um amigo meu e falei: “Cara, isso dá nome de festa”. Isso foi em 2012. Mas eu senti que ainda não era o momento. Eu achava que não tinha maturidade pra tocar um projeto assim, então guardei a ideia. Parece até que eu já sabia que era uma coisa grande.
Em 2015 eu ainda estava fazendo essas festas gratuitas e resolvi lançar a primeira edição da E Eu Que Era Emo. Foi no Durangos, que era um bar muito conhecido, daqueles de cachorro-quente barato que também abriam espaço pra bandas independentes. Só que o espaço que a gente alugou era basicamente a parte de cima do bar — uma salinha minúscula, por onde as pessoas iam ao banheiro. Cabiam umas 25 pessoas ali. A gente combinou com o dono um cachê de uns 100 reais e bastante cerveja. Eu fiz a arte, anunciei o evento na internet… e começou a ter muito engajamento, e eu lancei o evento dois, três dias antes. Só que eu não botei fé que ia dar certo. Quando eu cheguei no dia da festa tinham 400 pessoas na rua, revoltadas porque o lugar não cabia ninguém. Teve gente apontando o dedo na minha cara dizendo que eu era amador. Ficamos chocados com a demanda. Mesmo assim a gente fez a festa no quartinho e foi muito divertido. Quando eu cheguei em casa percebi que tinha ali uma oportunidade enorme.
MADM: E como foi dar o próximo passo depois disso?
EEQE – Igor: O problema é que eu estava completamente sem dinheiro. Eu sabia que se lançasse a festa num lugar maior ela ia bombar, mas eu não tinha grana. Começamos a procurar casas pela cidade e entramos em contato com várias. Muitas nem responderam direito. Isso acontece muito: as casas preferem trabalhar com gente que já conhecem. Os amigos que fortalecem os amigos e não dão espaço para as pessoas novas. Eu fiquei muito chateado.
Até que falamos com o Raízes da Lapa, que na época ficava onde era o antigo Águia Branca. Eles falaram que topavam fazer, mas pediram um cheque-calção de três mil reais. Eu tinha 25 centavos na conta (risos), sem brincadeira. Fiquei muito chateado, mas no dia seguinte acordei com uma mensagem da minha ex-sócia dizendo que acreditava no projeto, no meu sonho e que ia bancar esse valor pra gente tentar.
A gente lançou a primeira edição grande da E Eu Que Era Emo com mais planejamento — arte, divulgação, tudo certinho. E foi um sucesso absurdo. Deu mais ou menos 1.200 ou 1.300 pessoas, esgotou. Ali a gente entendeu que existia uma demanda enorme. Não sabíamos que tinha tanto emo no Rio de Janeiro. (risos). O emo tinha muito estigma, muitas pessoas preferiam ser vistas como indie, ou pop punk. Então percebemos que os emos precisavam ser representados.
MADM: O Rio de Janeiro é uma cidade muito associada a eventos, mas quem produz festas pequenas ou nichadas sabe como é difícil. Quais foram os principais desafios logísticos no começo?
EEQUE – Iggor: No início rola muito amadorismo. Você vai aprendendo fazendo, no ao vivo. Eu não tinha feito curso nem nada, então fui descobrindo tudo na prática. E tem muitas portas fechadas. Às vezes não é nem porque o projeto é ruim, é porque você não conhece as pessoas certas. Pra quem quer começar do zero eu sempre digo: você vai ouvir muito “não”. É um meio muito fechado e muito baseado em indicação. Se você quiser fazer o seu próprio corre sem conhecer ninguém, sem contatos, você tem que dar sua cara a tapa e acreditar muito no seu sonho.
Depois da primeira edição também teve um certo choque na cena. Teve gente que adorou a festa, mas teve gente que não gostou nada. A gente acabou batendo de frente com festas que já existiam na cidade e também com outras festas alternativas. Muita gente pensou: “Quem são esses caras chegando agora?” (risos). A gente mexeu em um vespeiro que nem imaginávamos, a gente só queria fazer o nosso rolê. Foi ali que eu comecei a entender que produzir evento também envolve política — especialmente em cidades como Rio e São Paulo. Eu era muito inocente e tomei muita rasteira no começo.
MADM: Você falou de acreditar no próprio sonho. Com o tempo, quando a festa cresceu e mais gente começou a trabalhar nela, também passou a ser importante acreditar no sonho das outras pessoas?
MADM – Iggor: Totalmente. Até 2019 a E Eu Que Era Emo era basicamente eu, minha ex-sócia e um ou dois assistentes. Era uma estrutura muito centralizada. Acho que eu tinha medo de dividir o sonho, talvez por achar que ia dar ruim. Eu sempre tive muito cuidado com a marca. Eu costumo dizer que ela é como um bebê. Comunicação, estética, identidade… tudo sempre passou muito por mim.
Mas depois da pandemia eu comecei a perceber que sozinho eu não ia chegar longe. Durante as lives que a gente fez naquele período eu recebi muitas mensagens de gente agradecendo. Teve gente dizendo que as lives estavam ajudando a passar por momentos muito difíceis. Aquilo me fez entender a responsabilidade social do projeto nesse nicho, nesse meio. A partir daí comecei a perceber que a E Eu Que Era Emo não era mais só minha. Era de todo mundo que fazia parte daquilo. E eu fui aos poucos soltando ela, sentindo aquela síndrome do ninho vazio (risos).
Hoje eu tenho uma equipe maravilhosa. Teve uma edição, inclusive, que eu estava internado e não pude ir — e a equipe segurou tudo, eu tive um respaldo incrível…Da Julia, principalmente, que foi a dona da E Eu Que Era Emo, e arrasou. Tenho que agradecer muita gente. Foi aí que eu tive certeza de que o projeto já era coletivo. É bonito de ver que não é só mais meu sonho, é um sonho de muita gente. Poder compartilhar meu conhecimento com eles é muito daora. Seja como DJ, como produtor de eventos, ou designer. É bom saber que de certa forma estou deixando um legado.
MADM: E como você enxerga o público da festa hoje? Parece que virou também um espaço de pertencimento, não só de nostalgia.
EEQE – Iggor: Pertencimento é exatamente a palavra. A E Eu Que Era Emo deixou de ser só uma festa há muito tempo. Virou uma comunidade. Um espaço onde as pessoas podem ser quem elas são e se sentir acolhidas. A gente tem muito essa preocupação de olhar a pista de verdade. Nós fazemos uma E Eu Que Era Emo pra cada um ali. Não só ver quem está pulando feliz, mas também quem está meio deslocado. Eu falo muito isso com a Julia, e hoje ela fala com os outros também: a importância de pensar em como podemos agradar as pessoas. Às vezes a gente percebe alguém com uma camiseta específica de banda e toca uma música só pra aquela pessoa. É quase uma magia que a gente foi criando ao longo do tempo.
EEQE – Julia: Uma coisa que eu percebo é que existe também o grupo que frequenta a festa mas que não viveu o auge do emo. A gente vê muita gente nova na E Eu Que Era Emo, que não teve idade para acompanhar o emo na sua melhor fase. Eu, por exemplo, estava no Ensino Fundamental quando o emo estava no auge. Então é muito legal ter essa troca não só com as pessoas que viveram o emo, mas com a galera que gosta e ouve as bandas, mas que sente aquele fomo de não ter vivido isso na época. (risos). Tem muita gente novinha que aparece de franjinha pro lado, calça skinny e camisa de banda e se monta inteiro pra festa. Eu acho isso muito legal. A E Eu Que Era Emo acabou virando um evento que retroalimenta esse consumo. Tem gente que fala: “Nunca tinha ouvido My Chemical Romance antes de vir aqui”. Então a festa virou também um lugar onde novas pessoas descobrem esse universo. A festa traz um público que muitas vezes nem sabia que esse tipo de evento era uma opção.
EEQE – Iggor: Isso é muito real, os emos novinhos. A gente costuma dizer que a festa já está chegando na quarta geração de público. A galera que começou a ir em 2016 hoje muitas vezes já está casada, com filho, com dor nas costas (risos), não vai pra balada ficar até de manhã tomando cachaça. E ao mesmo tempo chega gente de 18, 19 anos — às vezes até mais novos — que descobriram essas bandas agora, muito por causa do TikTok. A gente observa essa renovação, e é muito maneiro. Tem muitas pessoas mais novas, menores de idade, que deixam comentários nas redes sociais e mandam mensagens dizendo que estão esperando ter idade suficiente pra ir. É muito legal.
MADM: Hoje vocês também produzem outras festas além da E Eu Que Era Emo. Como surgiram esses novos projetos?
EEQE – Iggor: Na verdade, a ideia inicial sempre foi que E Eu Que Era Emo fosse parte de uma série chamada E Eu Que Era.Na época eu pensei em lançar também E Eu Que Era Indie, E Eu Que Era Clubber e outras variações. Só que a emo acabou tomando uma proporção tão grande que as outras ficaram engavetadas por anos.
Em 2022 eu finalmente lancei a E Eu Que Era Indie, que deu super certo, a galera curtiu demais. E depois veio também a Otaku, que acabou crescendo muito. Eu queria muito lançar a Otaku, era uma vontade antiga. Hoje ela já funciona praticamente como uma festa própria. Nisso tudo, a gente percebeu que temos um público que independente do que a gente fizer, eles colam nos eventos pela qualidade. Já recebemos muitas mensagens e feedbacks assim.

EEQE – Julia: A primeira Otaku, veio junto com a Emo. Até hitou no twitter. Foi E Eu Que Era Emo… e Agora Sou Otaku. Deu bastante gente, e nós percebemos que ela precisava dar seus próprios passos, e hoje ela é maior que a Emo, em público e demanda. Às vezes fazemos as duas festas juntas, porque é muito legal, mas hoje em dia ela é uma festa separada.

MADM: E como vocês pensam nas edições temáticas da E Eu Que Era Emo?
EEQE – Iggor: A gente observa muito o que está acontecendo na internet e na cena musical. Por exemplo: se vai ter show de alguma banda grande, a gente já pensa em fazer um especial. Hoje a gente tenta planejar o calendário com até um ano de antecedência. Ano passado, com o show do Bring Me The Horizon em novembro, em janeiro nós já estavamos pensando em marcar a festa.
Mas também escutamos muito a comunidade. Temos grupos com centenas de pessoas no Rio e em BH onde perguntamos diretamente: “O que vocês querem ver? O que vocês tem escutado?“. Às vezes alguém dá uma ideia aleatória — tipo uma festa do pijama — e vira uma edição inteira. Acreditamos que ouvir o público deixa tudo mais daora, sabe. É aí onde entra a questão do pertencimento, a gente realmente exerce isso e entrega isso pra quem faz parte da comunidade.
EEQE – Julia: A gente faz um brainstorm muito maluco, ficamos ligados nas ideias que mandam no Instagram também. O mais legal é que o público entra muito na brincadeira. Quando é especial de alguma banda ou estilo, a galera vai caracterizada. As pessoas incorporam as estéticas, eu adoro isso. O tema físico dita o que toca, e o que toca se reflete no tema também.
MADM: Para encerrar: como vocês imaginam o futuro da Eu Que Era Emo?
EEQE – Igor: A gente acabou de realizar um projeto que eu queria muito há anos: o Bloco da E Eu Que Era Emo no carnaval. Deu duas mil pessoas, foi muita gente. Sempre achei que não fazia sentido uma cidade como o Rio não ter um bloco emo. Mas justamente por ser a cidade do carnaval, existia uma questão burocrática em fazer isso acontecer aqui da melhor maneira possível. Isso atrasou em muitos anos. A gente fez o bloco ano passado, mas esse ano foi bem mais redondo.
Agora a ideia é continuar crescendo, duplicar, triplicar o tamanho. Levar a festa para outros bairros, talvez para a Zona Oeste, onde tem bastante demanda, mas pouca coisa estruturada, e também circular por cidades próximas como Caxias, Niterói e São Gonçalo. Seria legal entregar isso pra lá também. E quem sabe, num futuro não tão distante… transformar tudo isso em um festival.
MADM: Perfeito. Muito obrigada pelo papo e pelo tempo de vocês.
EEQE: Obrigado pelo convite. A gente que agradece. Foi muito legal conversar!
A próxima edição da E Eu Que Era Emo será um especial Fakeween à fantasia e acontece nos dias 13, 14 e 20 de março nas cidades de Belo Horizonte, Florianópolis e Rio de Janeiro, respectivamente. Confira mais informações abaixo. Ingressos à venda no Sympla.





