O caso João Vinicius: A injustiça cometida no festival I Wanna Be Tour 2024

No dia 09 de março de 2024 aconteceu no Riocentro, espaço no Rio de Janeiro, a primeira edição do festival I Wanna Be Tour. Com dois palcos e reunindo nomes como Simple Plan, Fresno e All American Rejects, o evento foi marcado por uma forte chuva e uma tragédia envolvendo a morte de um jovem, João Vinicius, de 25 anos, após sofrer uma descarga elétrica.

Mais de um ano se passou, e embora o caso tenha sido bastante repercutido nas redes sociais através da hashtag #JusticaPorJoaoVinicius, campanha organizada por Roberta, a mãe do jovem, a justiça não foi feita. A produtora 30e, responsável pela organização do evento, não prestou qualquer solidariedade aos familiares de João, e além disso, poucos meses após o ocorrido anunciou uma nova edição do festival para 2025, como se nada tivesse acontecido.

Diante disso, na tentativa de honrar a memória de João e buscar esclarecimentos sobre o caso, a MADM conversou com a mãe de João Vinícius e você poderá ler logo abaixo a entrevista na íntegra. Nosso objetivo enquanto editorial é reforçar a importância de que os responsáveis por esse crime sejam devidamente responsabilizados, e relembrar ao público também que exigir segurança em eventos desse porte é fundamental, para que outras tragédias não aconteçam.

MADM: Gostaríamos de começar a conversa sabendo um pouco mais sobre o João. Como ele era, o que gostava de fazer… pode contar um pouco sobre ele pra gente?

Roberta: Desde pequeno o João sempre foi muito tranquilo, né… muito caseiro, ele não saía… praticamente, não saía de casa. Ele ia da escola pra casa, ele começou a namorar muito cedo. Ele começou a namorar com 14 anos e ele ficou dez anos namorando, então nesses 10 anos ele ía pra casa dela final de semana, né, e durante a semana era estudo e… eles terminaram. E ele sempre gostou de rock, mas ele nunca tinha ido a show nenhum, e quando eles terminaram, é… ele começou a ir, mas ele não ia sempre, ele ia uma vez ou outra. A gente até levou ele em São Paulo no show do Slipknot, no Sambódromo do Anhembi , né… E enfim, ele tava se formando em Educação Física, ele já tava fazendo estágio de Personal em academia. A vida dele sempre foi assim, gostava muito de futebol, gostava de ir ao Maracanã ver o Flamengo, de vez em quando ele ia ver o Flamengo jogar… e ele sempre foi assim: muito caseiro, muito… muito calmo, muito tranquilo, nunca foi muito de… de bagunça, entendeu?

MADM: Entao imagino que, no dia do festival, ele estivesse bem animado, já que voce comentou que ele ia pouco a eventos desse tipo.

Roberta: Então, é… Ele me pediu pra levar ele porque ele tinha comprado uma passagem de ônibus fretado de Niterói pra lá. Então um dia antes ele me pediu pra levar até Niterói, né, a gente sempre levava. E me pediu um celular… se eu não tinha um celular velhinho pra ficar com ele porque ele gostava de estudar e ia ficar estudando o dia inteiro, então podia acabar a bateria e eu não ia conseguir falar com ele. A gente conseguiu um celular, velho, colocamos um chip pra ele, né… E no dia seguinte, ele tava MUITO animado, muito animado… Acordou cedo, chegou em Niterói o ônibus nem tinha saído ainda, a gente foi na padaria e tomou café. Oito horas que o ônibus ia sair, tanto que ele gente chegou lá (no evento) nove e meia, o portão nem aberto tava ainda.… E ele só ia sair depois que ele visse o Simple Plan. Só ia sair depois.

MADM: No dia do festival, como cê ficou sabendo que algo tinha acontecido?

Fios desencapados no espaço do festival. Foto concedida por Roberta.

Roberta: Então, eu mandei mensagem para ver se ele tinha chegado, né… Eu falava com ele o dia inteiro, se estava tudo bem… Até que umas nove e pouco da noite eu mandei mensagem perguntando se o show estava acabando, ele falou que ainda não.E nesse dia, é… meu esposo trabalhava no hospital do Fundão, e teve um problema, porque choveu muito. E teve um problema no hospital, né… Era tipo nove e pouco da noite. Chamaram ele. Aí eu falei com ele: “eu vou com você que daqui a pouco o João já vai sair. Tá bom.Fomos para o hospital. Aí eu fiquei no estacionamento e ele ficou resolvendo problema. Aí dormi. Nove horas eu falei com ele. Não tinha acabado o show ainda. E dez horas eu comecei a mandar mensagem. E ele não me respondia mais. Eu falei: “filho, está acabando?”. Não me respondeu. Não respondeu. Comecei a ligar pelo WhatsApp.Não atendia, não atendia. Aí eu fui ligar. Já eram dez e quarenta. Mais ou menos.Desde as dez horas que eu não falava. Aí eu lembrei desse número que eu tinha dado pra ele.Aí eu liguei pra esse número. Aí atendeu uma pessoa do hospital Lourenço Jorge. A ligação tava muito ruim, ela não estava entendendo direito. Ela não sabia quem eu era e só disse que ele tinha sofrido um acidente e que eu precisava ir para lá. Aí automaticamente eu chamei o meu marido dizendo que o João tinha sofrido um acidente e nós fomos pra lá. Quando nós chegamos lá, nós fomos atendidos por dois médicos e eu achei muito estranho porque na minha cabeça tinha sido um acidente no ônibus na volta, né… e como tinha muita gente no ônibus, eu achei estranho lá não tinha muita gente. E quando eu falei que era a mãe do João Vinicius a pessoa lá já se tocou de quem era.Então foi muito estranho, ela já estava atendendo o João. Aí o médico me atendeu, disse que ele tinha encostado no fio do truck, sofrido uma descarga elétrica, tinha sido reanimado, e tinha falecido a caminho do hospital, né… Isso já foi um impasse para mim, porque durante a semana que eu voltei ao hospital, eles me deram um BAM dizendo que ele tinha falecido às 23h40, então ele não faleceu a caminho do hospital, que a carta do hospital diz 22:40, então eu tive esse impasse porque o médico me falou uma coisa e o BAM depois falou, estava escrito outra. Só que eu tentei contato com o hospital. Eu tentei contato com o o médico, o médico tinha sido desligado do hospital. Eu tentei até contato com o Eduardo Page, secretário de saúde, com o próprio hospital… Ninguém me deu atenção, ninguém.Eu sei… eu sei que o João morreu no local. Essa história de ser reanimado…o meu marido trabalha com elétrica. O meu marido é responsável pela parte elétrica do hospital. Então ele sabe.A gente sabe que o João faleceu no local. Mas eu não tinha como provar. Era a minha palavra contra a do médico.

MADM: Então, Roberta, nesse dia do festival, ou no dia seguinte, alguém da organização do evento entrou em contato com você para falar sobre?

Roberta: Eu só consegui chegar no Riocentro, no dia seguinte, às sete horas da manhã, aí né… me deixaram entrar.A gente teve que acionar a polícia. A polícia chegou lá muito rápido. Eles chegaram lá em menos de dez minutos. Também o porteiro que estava lá disse que ia falar com uma pessoa lá dentro. O porteiro não voltou, aí a polícia foi abrir o portão.Quando nós entramos, estava tudo sendo desmontado, não tinha mais nada do espaço onde aconteceu o crime do João. O que tinha eram cabos todos espalhados pelo chão.Nós tiramos foto de tudo. Eles não tinham tirado os cabos espalhados pelo chão, é.. a parte elétrica muito precária, né… a instalação elétrica lá estava bastante precária. A polícia abordou uma pessoa lá. A pessoa disse que não tinha nenhuma informação.Ela era só responsável pela desmontagem do evento. Só que eu não parei e eu fui investigar quem era essa pessoa.Depois do inquérito concluído, eu fui pesquisar com essa pessoa. Essa pessoa era funcionária da 30e e ela era responsável por todo o evento.Ela estava lá durante todo o evento. Então, ela sabia do que tinha acontecido e ela não falou nada e ela disse em depoimento depois que ela só soube pela imprensa. Mas não, ela estava lá a noite toda, ela era responsável, eram quatro pessoas responsáveis da 30e por todo o evento.

MADM: Você havia comentado que seu irmão voltou ao local do festival no dia do evento, certo?

Roberta: O meu irmão foi lá, falou com o rapaz da portaria, o rapaz da portaria mandou um rádio lá pra dentro, e lá foi informado que não tinha ninguém para receber.

MADM: O show já tinha acabado, o evento?

Roberta: O show já tinha acabado, mas ainda tinha bastante gente lá dentro. O som estava saindo.

MADM: E desde então, ninguém da 30e entrou em contato com você?

Roberta: Não, no começo estava dando… Dando uma repercussão grande, né? E eu dei bastante entrevista, e eu dizia que eles não tinham entrado em contato e eles dizendo que estavam dando assistência à família, e em nenhum momento recebi nenhuma assistência. Nenhuma. Nenhuma assistência. Eu resolvi tudo com a minha família, sozinha. Eles me ligam, diante de tanto que eu falava que não tinha… Não estava entrando em contato, não estava entrando em contato. Me ligaram, só que eu não tinha condições de falar naquele momento. Eles tinham acabado de chegar do enterro do João e eu não tinha como falar naquele momento.

MADM: E a partir do que aconteceu, o que tem te ajudado a seguir em frente?

Roberta: É difícil, tá? Não é fácil, porque às vezes eu acho que ele está na academia, ele está estudando e depois a ficha cai. Muitas vezes eu acho isso porque ele morava na minha mãe, né? Então, eu acho que ele estava em casa. Eu acho que… está muito difícil. Eu estou… Eu já comecei tratamento psiquiátrico, eu já comecei no psicólogo, eu estou ainda afastada do trabalho, porque sou professora. Eu retornei ao trabalho, só que eu não consegui. Então, eu ainda estou afastada e eu não saio de casa. Eu só saio de casa com meu esposo.

Em depoimento para a MADM, Roberta disse ainda que, embora a maioria das investigações tenham apontado para um choque em contato com um foodtruck, é importante responsabilizar a organização do evento pelo ocorrido, e não os responsáveis pela instalação móvel, pois o fato de existirem fios desencapados espalhados pelo solo na verdade foi o motivo principal para a descarga elétrica da qual João foi vítima.

Fios desencapados em meio ao público.

Em seu recado final, Roberta reforçou que não é contrária à nenhum festival ou show, mas reitera a importância de que o público exija segurança e que medidas sejam tomadas para que a vida das pessoas não esteja em risco. Assim como ela, nós da MADM corroboramos com esse ponto de vista, e acreditamos ainda que é também importante que as bandas e artistas envolvidos em shows e festivais estejam cientes sobre políticas de segurança e bem estar do público.

O que dizem os órgãos do Rio de Janeiro envolvidos no caso?

Corpo de Bombeiros – RJ

Em declaração para a MADM, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro esclareceu que não foram acionados para atendimento à ocorrencia no festival. A atuação da Defesa Civil, segundo eles, ficou restrita à remoção do corpo do jovem já no hospital. Declaram também que “as investigações sobre as circunstâncias do caso são de competência da Polícia Civil.”

O CBMERJ reforça, ainda, a importância de medidas preventivas de segurança elétrica em eventos e grandes aglomerações, como a utilização de equipamentos certificados, manutenção adequada das instalações e presença de profissionais habilitados, práticas fundamentais para reduzir riscos e preservar vidas.”

CREA – RJ

O CREA (Superintendência técnica do Conselho Regional de engenharia e Agronomia do Rio) do Rio de Janeiro informou à MADM em declaração que “dois engenheiros respondem na comissão de ética por morte de jovem eletrocutado em festival de música.” Afirmaram ainda que “as câmaras especializadas em Engenharia Elétrica e em Engenharia Mecânica decidiram abrir processo na Comissão Ética contra um engenheiro eletricista e um engenheiro mecânico envolvidos no incidente“. Os casos correm em sigilo.

A fiscalização constatou também que o engenheiro responsável pelas instalações elétricas
é o mesmo que seria responsável pelo aterramento elétrico, que tem a função de proteger o
usuário do equipamento das descargas atmosféricas. Este profissional de engenharia tem
registro no Crea-SP, e é um dos 13 indiciados pelo inquérito da Polícia Civil. Se a Câmara
de Engenharia Elétrica encaminhar o caso para a Comissão de Ética, a infração prevê
punições que vão da censura reservada até a cassação do registro profissional.
Em junho do ano passado, parentes do jovem foram recebidos por uma equipe
multidisciplinar no gabinete da Presidência do Conselho Regional de Engenharia e
Agronomia do Rio (CREA-RJ), no Centro do Rio. A audiência foi solicitada pela mãe do
jovem, Roberta Isaac Ferreira, que havia enviado e-mail pedindo informações sobre o
andamento da fiscalização feita pelo CREA-RJ
.” Disseram em documento enviado para a MADM.

Polícia Civil

A Polícia Civil do Rio de Janeiro, especificamente a 32a DP, disse em declaração à MADM que o caso foi relatado e enviado à justiça, e houve indiciamento de 13 pessoas por crimes de homicídio como dolo eventual e fraude processual.

O que dizem as testemunhas

Por meio de nosso contato com Roberta, também tivemos acesso ao inquérito policial e os relatos das testemunhas revelam situações que chamam atenção para falhas preocupantes no evento. Eles também permitem entender melhor o que ocorreu. Uma das testemunhas relata:

“… Outra participante do evento, ANA BEATRIZ DIAS CARVALHO DE AZEVEDO, relatou que “entre as 15h e 16h, quando a banda BOYS LIKE GIRLS se apresentava, viu um casal tomando choque elétrico ao encostar em um food truck, que não se recorda o nome do food truck, mas sabe que ele estava no final da pista comum, perto da cabine fotográfica da Vans; Que o casal ao tomar o choque comunicou aos seguranças o ocorrido; Que os seguranças passaram rápido para alguém que não sabe informar e logo chegaram dois homens vestidos com uniformes cinza escuro, ambos com um aparelho que seria um ampímetro e começaram a testar se havia energização nos food truck; Que somente um dos homens fez o teste; Que um segurança os advertiram que eles não poderiam estar ali naquele momento; Que um dos rapazes respondeu que estavam ali por ter sido chamados para verificar se realmente os food estavam energizados; Que os rapazes ficaram conversando entre si, mas em nenhum momento a área foi isolada; Que até este momento não estava chovendo e mesmo assim já tinha conhecimento de que várias pessoas tinham tomado choque em diversos locais, como nos banheiros, no bebedouro, além dos food truck; Que haviam diversos cabos no chão e não havia qualquer proteção; Que as pessoas pisavam nos cabos; Que por volta das 22h30, na metade do show da banda A DAY TO REMEMBER começou a chover muito forte, o que ocasionou vários bolsões d’água; Que os cabos energizados ficaram dentro destes bolsões…”

A também testemunha e participante casual do evento, IZADORA SOUZA TRINDADE DA SILVA informou que:

“… por volta das 22h15min estava próximo à torre de som do lado direito, de quem olha para o palco e se deslocou em direção à área de alimentação da pista premium; Que havia chovido muito e se deparou com uma grande poça d’água entre os banheiros químicos e o primeiro food truck da praça de alimentação; Que a declarante ao se aproximar da poça foi alertada por alguém que estava dentro do food truck que não o fizesse, pois haviam cabos de energia submersos na poça; Que então a declarante se deslocou para o final do gramado onde estava o último food truck, momento em que percebeu pessoas da produção correndo de forma anormal; Que ao se aproximar, viu um homem que agora sabe-se chamar João Vinicius Ferreira Simão, caído ao solo e um homem fazendo massagem cardíaca em João; Que a declarante por ser médica veterinária percebeu que o paciente estava sem movimento torácico e que a coisa era grande, momento em que foi surpreendida com gritos de ‘sai da frente’ por brigadistas que passaram com a maca; Que a declarante assistiu os procedimentos de reanição até que João fosse levando para a ambulância; Que muitos espectadores estavam pedindo para que não parassem com a massagem…”

Mais uma vez, a equipe da MADM agradece e presta solidariedade à Roberta e à toda a família de João Vinícius pelo grave ocorrido no festival I Wanna Be Tour. Destacamos também que tentamos contactar a produtora 30e, mas não obtivemos resposta.

leia também

Kesha x Demi Lovato: Quem foi a primeira ‘brat’ da música pop?

Antes de se popularizar a partir do aclamado álbum...

Quando identidade não se traduz: Tyla e os choques culturais sobre raça

Preto, pardo, branco, indígena e amarelo. Essas são as...

XLOV e a Representatividade LGBTQIA+ no K-pop

Durante a infância e adolescência, buscamos referências que nos...

Muito além das multidões: a força dos eventos independentes no Brasil

Hoje, ao que tudo indica, não é mais sobre...