Em entrevista a MADM, a artista capixaba contou sobre o processo criativo de seu novo trabalho de estúdio
A cantora, compositora e produtora Luiza Boê lançou seu terceiro disco de estúdio “Sonhos” em outubro de 2025. Marcado pela sutileza das composições e um passeio entre o onírico e o cotidiano, o álbum transforma o inconsciente em matéria prima, em canções que misturam a poesia e a pluralidade criativa e sonora. Luiza, que assumiu pela primeira vez a direção musical de um disco, traz um projeto que reafirma seu olhar sobre a arte enquanto um caminho que transforma as vivências em atos simbólicos e poéticos.
Com direção de arte de Giulia Barbero, identidade visual de Beatriz Sallowicz e direção audiovisual de Gabriela Boeri, “Sonhos” é um disco que propõe a arte como ritual e uma visita às imagens e vozes que habitam o inconsciente humano. Tamanha sensibilidade reflete um trabalho coletivo, já que o disco foi gravado com a participação de 8 produtores musicais, com arranjos que cruzam influências da MPB, da música contemporânea e da cultura popular. Gravado entre São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Aracruz (ES), “Sonhos” reflete a amplitude artística de Luiza Boê, tendo como resultado um trabalho particular e intenso.

Ao longo das 13 faixas, destacam-se “Saudade Não Envelhece”, parceria com Marcelo Jeneci; “Meu Mar”, com Jacques Morelenbaum e ainda a faixa “Sonhar Floresta / Ka’agwy Porã”, gravada em colaboração com o Coral Indígena Guarani Tape Retxakã, que traz de forma emblemática a força ritualística da cosmovisão indígena. A mixagem foi feita por João Milliet e a masterização é de Carlos Freitas. A MADM conversou com Luiza sobre o disco, seu processo criativo, sonhos e influências sonoras e você pode ler a entrevista completa logo abaixo:
MADM Entrevista | Luiza Boê
MADM:
Oi, Luiza! Tudo bem? Obrigada pela entrevista e pelo seu tempo. A gente fica muito feliz em te receber aqui no nosso portal. Eu estava estudando o seu trabalho, ouvindo seus discos para preparar esse papo — confesso que ainda não conhecia tão profundamente — e queria começar dizendo que fiquei apaixonada. Seu trabalho tem uma sensibilidade muito bonita. Então queria começar te parabenizando.
Luiza Boê:
Ai, obrigada! Eu fico superfeliz. Cada espaço que se abre para falar do meu trabalho é muito precioso pra mim. Obrigada mesmo por ouvir com atenção e por querer bater esse papo comigo.
MADM:
Queria começar falando sobre Sonhos, álbum lançado em outubro do ano passado. Foi a primeira vez que você assumiu a direção musical do disco. O que essa experiência te revelou sobre você mesma como artista? Como foi descobrir a Luiza na direção musical?
Luiza Boê:
Foi muito especial. Eu sempre trabalhei com produtores incríveis — no meu primeiro disco com o Cassim, no segundo (Amanhecer), no EP Terra-Mar — e aprendi muito com essas pessoas. Mas eu sentia vontade de trabalhar com produtores diferentes, que são referências pra mim e que também produzem artistas que eu admiro.
Ao mesmo tempo, percebi que, se eu fosse esperar um álbum para trabalhar com cada uma dessas pessoas, eu levaria uns 20 anos. Então decidi fazer convites a partir das minhas composições, entendendo para onde cada música pedia para ir. Eu sinto que as músicas vêm com uma aura própria, que elas já sabem o que querem ser. A gente controla até certo ponto, mas a criação tem esse fluxo.
Foi assim que reuni um time de mais de oito produtores, além de produzir uma das faixas. Isso me deu uma sensação muito grande de verdade e autonomia sobre o meu trabalho. Parcerias com pessoas como o Gustavo Ruiz — vencedor do Grammy —, o Tó Brandileone, o Zé Nigro, entre outros. Todo mundo topou entrar nesse intercâmbio artístico, e isso foi muito bonito.

MADM:
Isso fica muito evidente no disco. Sonhos tem um universo sonoro muito rico, plural, com uma diversidade de influências muito clara. Você diria que esse mosaico musical é resultado dessas colaborações?
Luiza Boê:
Com certeza, mas também vem muito da minha formação. Eu cresci no Espírito Santo, que é um estado meio invisibilizado entre Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Então cresci recebendo influências muito diversas: muita micareta, axé, samba, pagode, reggae.
Minha família é mineira — eu nasci em Minas — então ouvi muito Beto Guedes, Milton Nascimento, toda essa música mineira. E, nos anos 1990 e 2000, o movimento Manguebeat, em Pernambuco, também influenciou muito essa mistura de rock, hip-hop e cultura popular. Isso chegou forte no Espírito Santo, especialmente através de bandas de reggae que misturavam tudo isso.
Eu cresci nesse contexto de mistura, então minha música reflete isso naturalmente. Mesmo em trabalhos mais concisos, como Terra-Mar, ou em Amanhecer, que foi um álbum de pandemia gravado de forma mais intimista, essa diversidade aparece nos ritmos, nas estruturas, nos caminhos das músicas. Essa mistura é uma bandeira pra mim — e os diferentes produtores ajudaram a deixar isso ainda mais evidente.
MADM:
Outro ponto muito marcante do disco é que a direção de arte, a identidade visual e a direção audiovisual foram assinadas por mulheres. Isso foi uma escolha intencional?
Luiza Boê:
Foi, sim. Eu acho muito importante trabalhar com mulheres diversas. Os homens são importantes nas lutas, claro, mas eu gosto de dar esse protagonismo às mulheres.
A Giulia Barbero fez a direção criativa do álbum, algo que eu nunca tinha tido antes, porque quando você não tem recurso, acaba fazendo tudo sozinha. Com o tempo, você percebe que estava exercendo vários papéis diferentes. A Giulia tem um trabalho lindo, inclusive com a marca Casa Sono, e traz um universo muito onírico, muito poético.
O clipe, por exemplo, traz esse quarto cenográfico no meio do mato, essa sensação de estar num quarto de sonho. Já o audiovisual foi feito pela Bruna Moraes e pela Gabriela Boelho, uma dupla incrível de cineastas. A gente gravou tudo em película, em Cunha, num sítio chamado Arreza. Foram dois dias mágicos: oito mulheres juntas, imersas na natureza, criando.
Mais do que o resultado final, eu me importo muito com o processo — que as pessoas se sintam vistas, reconhecidas e felizes. Isso se reflete na arte.
MADM:
O onírico atravessa todo o álbum. Em que momento você percebeu que o sonho seria o eixo central desse trabalho?
Luiza Boê:
Eu estava muito conectada com o filme Sonhos, do Akira Kurosawa, que vi na escola quando criança e depois revi adulta. Ele apresenta pequenas histórias a partir de sonhos, e isso dialogava muito com as composições que estavam surgindo, que pareciam cenas.
Além disso, várias músicas do disco vieram literalmente de sonhos — quatro ou cinco. Eu vejo o sonho como um oráculo, um outro mundo que a gente acessa enquanto dorme, e que traz muitas revelações sobre nós mesmos.
No meu aniversário, antes de começar as gravações, tirei uma carta de oráculo que dizia “a essência dos sonhos”. Aquilo confirmou tudo. A partir daí, fui pesquisar diferentes concepções de sonho: o sonho vendido pela publicidade, o sonho na psicanálise, o sonho nas perspectivas indígenas.
Li livros que me transformaram, como A Queda do Céu, do Davi Kopenawa, e O Oráculo da Noite, do Sidarta Ribeiro. Eles falam sobre como os povos indígenas sonham além de si mesmos — sonham a floresta, sonham coletivamente. Isso me marcou muito e virou a música “Sonhar Floresta”, que fala sobre a urgência de sonhar para além do próprio umbigo.
MADM:
Pra encerrar: além das colaborações com produtores, você pensa em parcerias com outros artistas brasileiros? Com quem você sonha colaborar?
Luiza Boê:
Alguns anos atrás isso parecia muito distante, mas hoje já está mais próximo. Maria Bethânia, com certeza — uma deusa. Tulipa Ruiz também, que eu admiro muito. A gente já dividiu palco algumas vezes, e seria lindo colaborar.




