No dia 02 de fevereiro de 2025 aconteceu a cerimônia do Grammy, a premiação mais importante da música mundial. Nesta edição, Beyoncé recebeu 11 indicações com seu novo álbum de estúdio “Cowboy Carter”, incluindo a categoria “Álbum do Ano”. Porém, embora o prêmio fosse muito aguardado já que ela, uma das maiores artistas do mundo, nunca tivesse recebido um gramofone por ele, havia muitas dúvidas sobre isso, já que o álbum foi polêmico na indústria.
O primeiro ponto sobre isso é o fato de ser um álbum de música country feito por uma artista negra, e apenas essa frase já abre espaço para a discussão proposta nesse artigo. Beyoncé não é grande na indústria atoa, tem uma discografia cheia de álbuns conceituais e que propõem discussões importantes, como temas de gênero e também a negritude. Ao gravar um disco como Cowboy Carter, lançado em 2024, ela provoca uma indústria majoritariamente branca e conservadora, principalmente ao reivindicar o texas, sua terra natal e também uma região dos Estados Unidos construída sob uma ideologia escravista e racista, desde os conflitos de Guerra de Secessão no século XIX, quando o sul escravista vivia em desacordo com a porção norte, industrializada e que defendia a abolição.

Ao longo das 27 músicas, Beyoncé traz interludes, arranjos que misturam elementos do country com a black music e o R&B, sem perder o tempero pop grandioso que já é marca da artista. Em músicas como “Ya Ya”, uma das mais queridas pelos fãs, Beyoncé denuncia a qualidade de vida dos norte americanos, principalmente da população negra, em contraste com o “american dream” ou o “american way of life” vendido pela mídia e produções estadunidenses a partir dos anos 1990 até os dias atuais.
“Whole lotta red in that white and blue”
(Tem muito de vermelho nesse branco e azul)
“History can’t be erased, ooh”
(A história não pode ser apagada, ooh)
“You lookin’ for a new America”
(Você está procurando por uma nova América)
“Are you tired workin’ time and a half for half the pay?”
(Você está cansado de trabalhar um período e meio pela metade do salário?”)
O interessante é que essa postura questionadora, embora presente em outros trabalhos da artista, como o álbum “Lemonade”, não faz parte das discografias clássicas do gênero Country, então a construção do “Cowboy Carter” é feita de maneira bastante minuciosa e inovadora, provocativa. Tudo isso aparece também na composição de imagem do disco, desde a capa, até as demais imagens promocionais e os videoclipes. A presença da bandeira norte-americana, bem como outros elementos próprios da estética country são interessantes na medida em que provocam um ato de ressignificar esses símbolos comumente apropriados por grupos conservadores da sociedade estadunidense.

A relação entre a música country e o conservadorismo não é uma suposição, prova disso foi a presença de Carrie Underwood, um dos maiores nomes do gênero, na posse de Donald Trump. Existe uma tradição relacionada aos donos de terras e escravocratas do século XIX, ambientada nessa cultura do faroeste, do country, que é tomada pelos ideais rígidos do tradicionalismo cristão, heterossexual e patriarcal. Embora isso não apareça de maneira explícita nas canções do gênero, ele faz parte dessa atmosfera.
Então, quando a maior artista pop dos Estados Unidos, uma mulher negra, constrói um álbum entrando nesse universo e mostrando temas diferentes, reflexivos e críticos, mexendo naquela musicalidade tradicional e adicionando outros arranjos e elementos, ela incomoda. No entanto, o trabalho foi reconhecido pela academia, resultando no prêmio de Álbum do Ano para a artista. É uma releitura de um passado majoritariamente branco, no qual há lugar de protagonismo para a negritude, que denuncia uma América na qual não se tem qualidade de vida e nem progresso. Realmente interessante, corajoso, um trabalho que só uma artista com o tamanho de Beyoncé poderia fazer e ser reconhecida por isso.
O reconhecimento da artista se reflete nos recordes e nos números: com Cowboy Carter, Beyoncé foi a primeira mulher negra a ganhar o prêmio de Álbum do Ano no Grammy desde Lauryn Hill em 1999. Além disso, o álbum se tornou um dos mais reproduzidos em um único dia no Spotify em 2024, com mais de 76 milhões de streams globais em seu dia de estreia. Uma estatística ainda mais interessante e que reflete bem o álbum é o fato de que a cantora se tornou a primeira artista a liderar simultaneamente as paradas de country e álbuns pop da Billboard. Após esse grande feito, fica a dúvida: Qual será o próximo projeto ousado da Queen B? Será que ela vai se aventurar em outros gêneros musicais?